Coordenação Atxôhã

Resistência e Revitalização da Língua e Cultura Pataxó

A trajetória do Povo Pataxó é marcada por uma resiliência que transcende os séculos. No centro dessa jornada de reafirmação identitária, surge um marco fundamental: a criação da Coordenação de Pesquisa da Língua e História Pataxó, oficialmente denominada Coordenação Atxôhã, em 28 de novembro de 2009. Esta organização não nasceu no vácuo; ela foi estabelecida para dar continuidade e estrutura formal aos trabalhos de um grupo de pesquisa que já atuava há muitos anos, unindo diferentes segmentos da sociedade Pataxó em prol de um objetivo comum: a retomada da sua voz ancestral.

A Coordenação Atxôhã caracteriza-se por ser um organismo vivo, diverso e profundamente enraizado nos territórios. Ela não é composta apenas por acadêmicos no sentido tradicional, mas sim por uma rede de professores, pesquisadores locais, lideranças, pescadores, marisqueiras e parteiras. Essa composição plural garante que a pesquisa da língua — o Patxôhã — não seja um exercício isolado de gramática, mas uma prática coletiva que abrange a totalidade da vida Pataxó. A estrutura da coordenação possui uma capilaridade impressionante, distribuindo-se por todas as aldeias nos estados da Bahia e Minas Gerais, com coordenadores de área em cada município, garantindo que o conhecimento flua entre as bases e os centros de decisão pedagógica.

O surgimento da Atxôhã representa o rompimento com o que o povo chama de “Período da Negação”. Durante décadas, a perseguição, a violência e o estigma forçaram muitos indígenas a esconderem sua identidade e silenciarem sua língua para sobreviverem ao trabalho nas fazendas e ao preconceito das cidades. O processo de revitalização linguística, portanto, foi um ato de coragem. No início, a iniciativa enfrentou o ceticismo de “especialistas” e linguistas da academia, que questionavam a viabilidade de retomar uma língua após tanto tempo de silenciamento forçado. Contudo, a autonomia Pataxó prevaleceu. A Coordenação Atxôhã provou que a língua não estava morta, mas guardada nas memórias, nos sussurros dos mais velhos e nos vestígios culturais que resistiram ao tempo.

Hoje, a coordenação atua como um elo vital entre o passado, o presente e o futuro. Ela funciona como um centro de investigação cultural que vai além das palavras, registrando danças, desenhos, pinturas, músicas e o uso de utensílios tradicionais. Ao transcrever relatos de anciãos e cruzar esses dados com documentos históricos e arquivos da FUNAI, a Atxôhã constrói um “museu” dinâmico de saberes. Esse banco de dados não serve apenas para o arquivo, mas é a base para a produção de material didático, o fortalecimento do ecoturismo nas aldeias e a realização dos Jogos Indígenas Pataxó. É, em essência, uma ferramenta de autoestima que transforma a dor do passado em potência de afirmação para as novas gerações.

I Encontro de Pesquisadores da língua e História Pataxó

Metodologia de pesquisa e o papel pedagógico na manutenção do Patxôhã

A atuação da Coordenação Atxôhã é pautada por uma metodologia rigorosa, porém sensível às dinâmicas comunitárias. O trabalho de campo é o coração da organização. Os pesquisadores dedicam-se a ouvir e gravar a fala dos mais velhos, um processo muitas vezes desafiador, pois remexe em feridas históricas de sofrimento e humilhação. No entanto, é através dessa escuta atenta que se recuperam os termos, as entonações e os significados profundos que compõem o Patxôhã. A partir desses áudios e entrevistas, a coordenação realiza a transcrição, a reorganização de textos e a constante atualização da “cartilha” — um dicionário vivo que serve de guia para todo o povo.

No âmbito educacional, o papel da Atxôhã é orientador e transformador. A coordenação não apenas produz o conhecimento, mas garante que ele chegue às salas de aula das escolas indígenas. As atribuições pedagógicas incluem:

  • Orientação Direta: Apoiar os professores de Patxôhã na prática de ensino, ajudando na preparação de planos de aula e na criação de materiais didáticos específicos para cada realidade local.
  • Encontros Pedagógicos: Realizar fóruns de discussão e formação para professores e pesquisadores, promovendo o intercâmbio cultural entre as comunidades da Bahia e de Minas Gerais.
  • Integração Comunitária: Fomentar a participação dos mais velhos dentro do ambiente escolar, garantindo que o ensino da língua seja acompanhado pela história oral e pelos valores culturais.

As metas estabelecidas pela Coordenação Atxôhã são ambiciosas e refletem um projeto de nação indígena. O objetivo central é tornar o Patxôhã a língua falada em todas as aldeias e escolas Pataxó, consolidando-se como um elemento de união e entrosamento. Para isso, a coordenação mantém-se neutra em relação às políticas internas partidárias das aldeias, focando estritamente em uma política cultural, social e linguística. Essa postura fortalece a confiança da comunidade na instituição, permitindo que o trabalho de revitalização seja contínuo e fluido.

Além do impacto interno, a Coordenação Atxôhã tornou-se um modelo de referência para outros povos indígenas no Brasil. Ela demonstra que a autonomia na pesquisa — onde o próprio indígena é o pesquisador, o linguista e o historiador de sua trajetória — é o caminho mais eficaz para a descolonização do saber. O ganho social é imensurável: ao retomar sua língua, o Povo Pataxó retoma seu lugar no mundo, deixando de ser visto sob a ótica da carência (“povos que perderam a língua”) para ser reconhecido pela sua eficácia e protagonismo na reconstrução de sua herança. A Atxôhã é, portanto, mais que uma coordenação; é o símbolo de um povo que decidiu que seu futuro será escrito e falado em suas próprias palavras.

Texto por Karkaju Pataxó.