A origem da história do Povo Pataxó e sua cultura se encontram no interior do Estado de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. Há vestígios de que os indígenas Macro-Jê (tronco linguístico dos Pataxó), já habitavam a região Sul da Bahia. Após o ano 420 os Macro-Jê acabaram migrando para o interior, por conflitos com os indígenas Tupis. No entanto migravam em pequenos grupos da Mata Atlântica para o litoral a procura de alimentos, onde ficavam expostos aos confrontos como os Tupi.
Atualmente o povo pataxó vive em aproximadamente 50 aldeias espalhadas na região do extremo sul da Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O povo Pataxó em seu cotidiano fala a língua portuguesa e desde 1997 estão em processo de retomada da língua Pataxó chamada “ Patxôhã ”. Esse processo conta com a memória linguística dos mais velhos das aldeias Pataxó e esse processo é coordenado pela coordenação Atxôhã, que em um processo continuo de pesquisa tem retomado o uso da língua nas aldeias Pataxó.
A economia do povo Pataxó vem da produção e venda de artesanatos, pescas, agriculturas, pecuária, turismo, Etnoturismo, funcionários públicos e de pequenos comércios. O que a torna uma das comunidades com o cotidiano já integrado à sociedade não indígena. Cada comunidade Pataxó vem ao longo dos anos se adaptando a uma nova realidade, mas na cultura e costumes é um povo só, são acolhedores e gostam de conversar ao redor da fogueira, tendo nos mais velhos um livro de histórias e resistência.

Sirleide Batista Lopes (Waiã Pataxó), coordenadora da Escola Pataxó da Jaqueira, durante uma conversa/entrevista, comenta alguns aspectos importantes sobre o povo Pataxó:
Seus rituais variam de aldeia para aldeia: tem umas que realizam os rituais com mais frequência, outras só em épocas festivas. Há rituais que são realizados em umas e em outras não, como por exemplo, festas das águas nas aldeias de Minas Gerais, o lual ritual em noite de lua cheia, os Jogos Indígenas Pataxó e o Aragwaksã (Festa realizada na Aldeia Pataxó da Jaqueira) na Bahia. Na religião acreditam que Deus é tudo que tem na natureza, na água, no ar e na terra. A igreja hoje tem uma grande inserção nas comunidades pataxó enfraquecendo a participação de alguns indígenas nos rituais. Em rituais, manifestações ou atividades culturais das aldeias Pataxó geralmente são usadas vestes feitas de imbira (fibra retirada da árvore da biriba), cocares feitos de pena de galinha, pato, entre outras aves nativas da região, colares de sementes nativas, brincos feitos de penas ou sementes. Nas danças tem o maracá, considerado sagrado para o povo pataxó. As músicas são cantadas em português e no idioma do patxôhã. (Waiã Pataxó, Coordenadora das escolas da Jaqueira e Juerana, Entrevista dia 13/01/17).
A organização interna das aldeias pataxós geralmente segue um patrão onde existe um cacique, um vice cacique, e suas lideranças compostas por indígenas mais velhos da aldeia, ou até por algum jovem que tenha aptidão por liderar um grupo, sendo que todos fazem parte dos Conselhos de Caciques de suas regiões e atuam nas organizações dos movimentos indígenas da Bahia. As associações, cooperativas, conselhos e institutos que integram também as aldeias buscam captar projetos para melhoria das comunidades e são mantidas e administradas pelos próprios indígenas. Mas nem sempre foi assim segundo Bomfim:
Entre 1861 a 1939, os pataxó mantiveram-se na região do entorno do Monte Pascoal e tiveram que se unir a outros grupos indígenas com os quais mantiveram contatos ou vieram refugiados, garantindo assim sua sobrevivência e construindo suas vidas como se não bastasse, com a criação do Monte Pascoal em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, os pataxó enfrentaram mais um conflito dentro de seu território, quando se sentiram fortemente ameaçados. A criação deste parque previa a retirada dos habitantes do entorno da área em questão, no qual os pataxó estavam situados e, como resultado disso, em 1951, ocorreu um massacre denominado pelo povo pataxó de “Fogo de 51”. Esse massacre causou violência a integridade física e moral do povo pataxó, além da dispersão de muitas famílias pataxó que só aos poucos foram reerguendo suas vidas novamente em suas terras constituídas também outras comunidades ou passando a viver em outros locais circunvizinhos. (BOMFIM, Anari Braz, dissertação de mestrado, UFBA, p.20.).
O Povo Pataxó que historicamente tem mais de 525 anos de contato, é um povo da floresta que conhece a mata como ninguém e que habitualmente aparecia ao litoral para pegar mariscos na praia. Ao longo dos anos vem mantendo seus costumes e tradições, fazendo adaptações e enfrentamento para manter sua cultura, deixando pra trás o nomadismo, lutando pela terra, sem deixar de lutar pelos seus direitos conquistados com muita luta.
Os pataxó como tantos outros indígenas no Brasil foram obrigados a deixar seus territórios por causa do crescimento imobiliário que se espalhou no entorno das aldeias, com objetivo de explorar os bens naturais e já que são áreas com grande potencial turístico e em regiões com riquezas mineras. O povo pataxó foi forçado a abandonar suas terras em Porto Seguro e andou por muito tempo em outras áreas como Ilhéus, Canavieiras entre outras cidades do extremo sul baiano.
Mas como todo índio é apegado ao solo primitivo eles voltaram e se distribuíram por algumas aldeotas perto de porto seguro cerca de 12 quilômetros. Viveriam em paz ate hoje se por volta de 1961, o governo federal não tivesse criado o Parque Nacional do Monte Pascoal. Depois que surgiu o PNMP, os pataxós nunca mais tiveram paz. Eles viviam uma vida de aculturalizados, mas sem as mínimas condições. (Folha 78, Prot: 2556/82, FUNAI)
O trecho acima relata, o apego do povo indígena pelas suas raízes, o espaço onde o seu povo ancestral foi enterrado, marcando sua relação com a terra de origem. Começou então, em 1961, um entrave entre índios e guardas florestais que não queriam que os índios fizessem pequenas roças para seu sustento no entorno do Monte Pascoal. Neste tempo, o entorno do Monte Pascoal e cidades vizinhas também eram passagem de vários grupos indígenas que sobreviviam de caça, frutos e mariscos e que transitavam no litoral em busca de alimentos.
Com tais características, a caça e a coleta tinham, proporcionalmente, mais destaque na economia destes grupos que a agricultura; e que o oposto se dava no caso dos Tupi costeiros, mais sedentários e capazes de exercer um domínio mais estável sobre um território específico, onde plantavam suas grandes roças de mandioca e milho, intercaladas por extensões de mata — áreas de caça e coleta —, além do domínio de importantíssimos ecossistemas costeiros, especialmente estuários, restingas e manguezais, ricos em proteína animal, além do acesso ao próprio oceano.
Os Tupi constituíam um conjunto cultural e linguístico bastante homogêneo ao longo de toda a costa, ainda que fracionado em muitas unidades políticas locais de relativa flexibilidade, os grupos do interior só podem ser tomados como uma unidade por características bem genéricas, e, ainda assim, corre-se o risco de distorções.
Linguistas sustentam a hipótese de que a região compreendida hoje pelo sul da Bahia, Leste e Nordeste de Minas Gerais e o Espírito Santo — dominada pelas grandes bacias dos rios Doce, Mucuri, Jequitinhonha, Pardo e de Contas — tenha sido a região original de concentração dos grupos do tronco Macro-Jê. Isto explicaria a sua grande diversidade lingüística, que compreende as famílias Botocudos, Puri, Kamakã, Maxakalí, que possivelmente inclui as línguas designadas Pataxó — não suficientemente conhecidas para uma classificação precisa — e talvez outras, além de línguas isoladas, cujos escassos registros hoje disponíveis também não permitem maiores discernimentos.
As grandes aldeias dos Tupiniquim se tornaram presas fáceis da conquista lusitana, iniciada por métodos “pacíficos” e completada militarmente quando já não era possível a resistência. Neste processo, as grandes concentrações indígenas — intensificadas pelo trabalho catequético dos jesuítas — foram amplamente dizimadas pelas epidemias européias, rapidamente alastradas, de modo tal que, ao se encerrar o século XVI, praticamente já não havia tupiniquins livres na atual costa baiana.
Das aldeias missionárias que, nas cercanias de Porto Seguro, chegaram a mais de uma dezena, apenas duas o sobreviveram: as de São João Batista e Patatiba, tornando-se as vilas de Trancoso e Vila Verde. (Texto extraído de Breve história da presença indígena no extremo sul Baiano e a questão do Território Pataxó do Monte Pascoal, Cadernos de História, Belo Horizonte, V.5, n.6, , pag, 31 Jul/2000, José Augusto Laranjeiras Sampaio).

Com o passar do tempo depois de muitas lutas, sofrimentos, massacres, morte de muitos indígenas, direitos violados e muita resistência do povo Pataxó, é com a persistência dos anciões em retomar seu território que hoje os seus descendentes podem usufruir um pouco destas terras. Se não fosse por eles talvez os Pataxó estariam extintos.
A história de Coroa Vermelha começou a mais de 500 anos, quando a chegada dos Portugueses na região hoje conhecida como “Costa do Descobrimento”. Sendo que os Pataxó são em sua grande maioria oriundos da Aldeia Barra Velha que após muitos anos houve um massacre nesse aldeamento causados por homens brancos desconhecidos, trazendo mortes, separação de famílias e dispersão do nosso povo em 1951, episodio que ficou conhecido como “O Fogo de 51”, no qual morreram muitos índios espancados, outros se refugiaram em outros locais, assim formando outras aldeias. Foi ai que surgiu a aldeia de Coroa Vermelha e muitas outras.
Os primeiros índios que retornaram à Coroa Vermelha foi a família de Manoel Siriri, Itambé Pataxó e Chico Índio, na década de 70. Após esta data muitos outros índios foram chegando pra este local, procurando meios de melhorias para sobrevivência, pois este lugar é um local turístico.
A Terra Indígena Pataxó de Coroa Vermelha foi criada pelo decreto 1775/1996 e homologada em decreto de Junho de 1998 e publicado no Diário Oficial da União em 10 de Julho de 1998, com uma extensão de 1493 hectares. Enraizados estão à aldeia da etnia Pataxó, descendentes da Aldeia Mãe Barra Velha. Após a demarcação da terra, a nossa comunidade despertou e se organizou em busca da afirmação de sua identidade.
Devido ao longo processo de inserção forçada no mundo dos não índios, durante anos o Povo Pataxó foi relegado ao obscuro, sofrendo vários ataques e represálias às tradições e confinamento de sua cultura. Muitos foram obrigados a trabalhar nas fazendas em troca de um prato de comida, humilhando-se muitas vezes, deixando a sua forma tradicional de viver e sofrendo a rejeição do “ser índio”.
A construção de Coroa Vermelha em 1972, foi caracterizada pela atividade comercial, visando o turismo que surgiu como alternativa econômica diante principalmente da escassez de terra, e acabou por se tornar também um meio de ostentar e fortalecer sua identidade. Segundo GRÜNEWALD “O artesanato indígena Pataxó é criado para servir de souvenir, pois como mesmo dizem os índios, seu artesanato (na maior parte feito de madeira, consiste de gamelas, arcos e flechas, cocares, pentes, talheres, brincos, colares e pulseiras feitas com sementes etc.) é feito para que os turistas que passam por ali levem uma “lembrança do índio”. (GRÜNEWALD, Rodrigo de Azeredo. Os ‘Índios do Descobrimento’: tradição e turismo, pag. 77.).
Em Coroa Vermelha, antes dessa época, os Pataxó eram considerados pessoas da comunidade e viviam suas vidas sociais como qualquer outro individuo morador de sua região, com habilidade basicamente agrícola. E sempre teve contato direto com o fluxo turístico, sendo ali, portanto, criadas as tradições indígenas como importante instrumento de construção de sua identidade étnica, para a própria viabilidade econômica da aldeia. Com objetivo de minimizar os impactos do contato com o não índio torna-se impossível, pois os Pataxó são plenamente inseridos na sociedade.

Podemos citar como um dos principais elementos para a formação e manutenção da cultura a Escola Indígena Pataxó Coroa Vermelha que ao longo dos anos manteve presente os costumes e valores da cultura Pataxó. A escola atual tem uma grande infraestrutura. A mesma foi construída por ocasião dos 500 anos do Brasil pelo MINC (Ministério da Cultura), com parceria do IPHAN e FUNAI. O modelo arquitetônico e o espaço natural são parte da grande beleza do local. A construção feita na época foi de acordo com nossos costumes e tradições e atendia a demanda da comunidade. E, pelo crescimento populacional que na época era de 285 famílias e hoje, são mais de 1.000 famílias, e as séries que estamos atendendo, isto é, de pré-escolar a 8ª série do ensino fundamental. A escola funciona em três períodos: matutino, vespertino e noturno. Com mais de mil alunos matriculados, a estrutura foi crescendo para colher os alunos e hoje a aldeia conta também com um prédio da Escola Estadual Pataxó Coroa Vermelha que acolhe o 2º Grau do ensino médio.
Essa luta pela demarcação da Terra Indígena Pataxó Coroa Vermelha durou mais de vinte anos até que em 1997 foi homologada. Durante este período o nosso povo passou por várias mudanças: moradia, língua e a integração na sociedade, tendo que se adaptar ao convívio com os não índios. Mas para isso a comunidade teve que lutar muito para conquistar o nosso espaço. Os nossos líderes viajaram muito para procurar apoio das autoridades para reconhecer as nossas terras.
Portanto, agora está na hora de acordamos e buscarmos boa uma convivência com o passado, valorizando o que os nossos antepassados nos deixaram e nos preparando para um futuro melhor e menos sofrido. Para que no futuro, nossos filhos possam conhecer a história de sua nação e da nossa cultura, os Jogos Indígenas Pataxó tem um papel importante neste processo como amostra do passado.
Texto adaptado para o site por Karkaju Pataxó

